....Autor: Alice Jamieson (com supervisão de Clifford Thurlow)
Título Original: Today I’m Alice
Ano de Lançamento: 2009
Editora: Larousse
Número de Páginas: 336
Sinopse: Em ‘Hoje eu sou Alice’ a autora relata a extraordinária jornada de uma vítima de transtorno de múltipla personalidade, que precisou lutar contra a anorexia, o álcool, mas, mais do que tudo, contra nove personalidades alternativas que emergiram após ficarem adormecidas diante de uma infância perturbadoramente cruel. Sem controle, Alice entregou-se a elas – e sua vida passou a ser um caleidoscópio de acontecimentos e revelações. Este é o relato sobre uma doença e sobre a história de uma mulher que decidiu lutar contra a realidade e a imaginação.

É uma luta constante agir como se tudo corresse tranquilamente quando não está. Eu vivia uma mentira, para o mundo e para mim mesma. A primeira impressão eu devia parecer uma menina de sorte, com uma boa família, morando em uma casa bonita com pintarroxos no jardim. Aquela era a imagem, não a verdade. Nunca fora a verdade. Nós observamos outras pessoas e imaginamos que as conhecemos. Não as conhecemos. Não podemos conhecê-las. Todos são um mistério. Eu era um mistério para mim mesma”.

Diferentemente da Alice de Lewis Carroll, esta história não é sobre a garotinha que encontrou o “país das maravilhas”. Pelo contrário, é um relato real, chocante e brutalmente perturbador de uma mulher que passou boa parte da infância e adolescência sendo abusada sexualmente das formas mais terríveis e cruéis pelo próprio pai (se é que um monstro desse pode continuar sendo chamado de pai).

Em “Hoje eu sou Alice” não há meias palavras. Logo no início da narrativa a autora deixa bem claro que não irá se desculpar “pela linguagem chocante em alguns trechos e pelas verdades indigestas que precisam ser contadas”. Sendo assim, o leitor já sabe que o que o espera é um relato extremamente difícil e chocante de uma mulher que passou a vida inteira tentando se livrar da tortura de ter sido brutalmente violada pelo homem que deveria proteger e zelar pelo seu bem estar.

Esse é, definitivamente, um livro que precisa ser lido com muita calma e muita cautela, já que alguns momentos são realmente horríveis de serem digeridos. Alice relata sem pudores as cenas do abuso sofrido e os momentos mais aterrorizantes de sua existência.

Basta uma olhada em mim e nas minhas fichas médicas e você pensará: o que há de errado com essa garota? O que há de errado é que desde bebê até a adolescência eu fui constantemente estuprada, sadomizada e abusada. Não se supera isso, simplesmente não conseguimos. Não era algo que eu havia feito; era algo que meu pai havia feito comigo

Á primeira vista Alice Jamieson parecia uma garota normal. Vinda de uma família de classe média alta, ela teve uma educação de primeira qualidade, viajou para os lugares mais legais do mundo, era a primeira aluna da classe e dona de tantas outras qualidades que poderiam ser atribuídas a muitas garotas que conhecemos. O problema entretanto, é que entre quatro paredes, Alice era vítima de abuso sexual e mais do que isso, vivia num lar extremamente desestruturado, com um monstro no lugar do pai, um irmão com quem pouco falava e uma mãe, que embora tentasse ser amorosa, era ausente e bastante distraída.

Aos poucos os danos mentais da violência sofrida dentro da própria casa começa a dar sinais. Alice desenvolve vários problemas emocionais e apesar de tentar levar uma vida normal, acaba sendo constantemente perturbada por uma série de vozes que a incentivam a por fim na própria vida, o que faz com que, inicialmente, Alice lide de uma maneira muito confusa com tudo, principalmente com as lembranças do abuso que em muitos momentos pareciam apenas “fruto da sua imaginação”. Aos poucos porém, sua situação fica tão irremediável que nem ela sabe mais quem é e o que está fazendo.

Até chegar num diagnóstico aceitável, Alice passou por diversas humilhações. Foi internada num sanatório, considerada psicótica, esquizofrênica e viciada em diversos remédios, até enfim, descobrir que sofria de transtorno de personalidades múltiplas (TPM) – o famoso transtorno dissociativo de identidade (TDI). Billy, Samuel, JJ, Kato, Shirley e todas aquelas pessoas que a visitavam constantemente, eram na verdade, mecanismos de defesa criados pela própria Alice para se “desligar” do abuso – que mais tarde descobre-se que não era cometido apenas pelo pai, mas por um círculo de pedófilos ao qual ele pertencia.

Sempre soube e sempre menosprezei meu próprio conhecimento, meus sentimentos, minha intuição. Você ouve vozes e lembra-se de coisas horríveis, inacreditáveis, e não pode evitar pensar que está louca, que aquilo não pode ser real, que há algo errado com você. De fato, havia algo errado comigo – e eu sabia o que era: eu era várias pessoas ao mesmo tempo”.

A trajetória de Alice é incrível. Acredito que nem um autor brilhante seria capaz de criar uma personagem tão cheia de nuances e complexidades. É impressionante o quanto um crime pode afetar a vida inteira de uma pessoa. Alice sofreu momentos dignos de filmes de terror, foi violentada, auto-mutilada, taxada de louca, viciada em álcool, drogas, remédios, atormentada por vozes e lembranças cruéis do passado. Mas o que é mais motivador, é que mesmo com tudo isso, ela hoje, tenta se reerguer. Por mais difícil que seja ela luta contra os monstros da memória e traz um relato que no fundo, é inclassificável.

Alice é real. Uma mulher real. É tantas outra garotas e garotos que passam constantemente pelo martírio de serem  violentados fisicamente e mentalmente por agressores que muitas vezes vivem em sua própria casa. Acredito que esse livro sirva de alerta para muitas pessoas perceberem que o abuso sexual infelizmente existe e que cabe a nós observarmos e cuidarmos das nossas crianças.

Eu como futura psicóloga sei que meu papel pode ser fundamental no tratamento de qualquer pessoa que sofreu pelo menos uma vez na vida esse ato de tamanha monstruosidade. Sendo assim, é difícil não indicar esse livro. “Hoje eu sou Alice” realmente tem momentos difíceis de serem lidos, mas é um relato que vale a pena conhecer. Em meio a tantos continhos de fadas com finais felizes é importante percebermos que o mundo não é um mar de rosas e que enquanto seguimos surdos, cegos e mudos para as coisas “escabrosas” a nossa volta, pessoas passam a vida torturadas (e acreditem, culpadas) por um crime que infelizmente passa na maioria das vezes despercebido e impune pela sociedade.

Não queria estar viva, mas também não queria estar morta. Queria ser outra pessoa, alguma versão mais feliz de mim mesma”.

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