...Autor: Louise Millar
Título Original: The Playdate
Ano de Lançamento: 2013
Editora: Novo Conceito
Número de Páginas: 384
Nota: 4/5
Sinopse: Em um subúrbio tranquilo de Londres, algumas mães se ajudam através de amizade, favores e fofocas. No entanto, algumas delas não parecem confiáveis e outras têm segredos obscuros. Quando Callie se mudou para seu novo bairro, pensou que seria fácil adaptar-se. Contudo, os outros pais e mães têm sido estranhamente hostis com ela e com sua filha, Rae, que também descobriu como é difícil fazer novas amizades. Suzy, seu marido rico e seus três filhos parecem ser a única família disposta a fazer amigos, mas, recentemente, a amizade com Suzy anda tensa. Ainda mais com a atmosfera pesada que pairou sobre o bairro após a chegada da polícia e o relato de um possível suspeito morando no bairro. O que Callie e sua pequena Rae podem esperar? Em quem confiar? E, sobretudo, como imaginar que certas atitudes rotineiras podem colocar em risco a vida de sua pequena filha? Verdades e mentiras parecem se esconder nestas pequenas casas.

” – E a senhora confia nela?
Ergo os olhos para o rosto da jovem. Provavelmente ainda não têm filhos.”

Diferentemente da maioria dos livros que li em 2013, “Uma Questão de Confiança” demorou para me conquistar. Vendido como um suspense/thriller psicológico o livro de Louise Millar realmente não deixa de cumprir com o prometido, porém, a narrativa lenta e intimista de quase metade da obra deixa aquela sensação “sabática” no leitor.

Boa parte desse clima parado do inicio do livro, se deve a forma como a autora escolheu apresentar as três protagonistas da história. Toda a trama gira em torno de três donas de casa completamente diferentes, mulheres que vivem próximas uma da outras e carregam no seu dia a dia e em suas relações, diversos conflitos que são revelados pouco a pouco a medida que avançamos com a leitura.

Callie é uma jovem mãe solteira que abriu mão do “emprego dos sonhos” para se dedicar integralmente a sua úncia filha, Rae, uma menina de cinco anos de idade, que sofre de um grave problema cardíaco. Se sentindo entediada com sua rotina e de certa forma “isolada” pela maioria dos vizinhos que parecem ignorar sua presença e a de sua filha, Callie acaba vivendo uma relação muito “dependente” com a única amiga que conquistou no lugar: a norte-americana Suzy que vive na casa da frente na companhia do marido e dos três filhos.

“Nossa amizade não é uma escolha, mas uma carência. A estrangeira americana em Londres e a mãe solitária: empatadas. Está errado apoiar-me tanto nela sem ser sincera sobre quem sou de fato, deixando que a verdade fique escondida em algum canto escuro, como um espírito maligno, à espera. Entretanto, sigo em frente porque preciso dela. Não consigo sobreviver sem ela. Ainda não.

Suzy, apesar de bela e jovem, também passa vinte e quatro horas por dia em função dos filhos pequenos e sofre com a ausência e frieza do marido, Jez, que como um típico homem de negócios vive trabalhando e mais parece um “fantasma” do que um dedicado chefe de família.

Em contrapartida, conhecemos Debs, uma professora de meia idade que se muda com o marido para a casa ao lado da de Suzy e pouco a pouco acaba adentrando numa verdadeira rede de intrigas e mentiras. Atormentada por um problema do passado, Debs é desconfiada e sofre de uma enorme “mania de perseguição” o que faz com que as pessoas não deem muita credibilidade para as verdades que somente ela parece enxergar.

“Se uma pessoa estranha entrasse ali, naquele momento, veria um lar. Mas, olhando com cuidado, dava para ver a mentira deslavada. Era só espaço. Espaço entre tijolos e argamassa , vidros e azulejos. Espaço por onde as pessoas andavam, com a presunção de que tivessem criado algo especial do nada, algo significativo e permanente. Um lar. Aquilo ali, porém, não era um lar. Era uma ilusão”.

Acredito que o título brasileiro não poderia ser mais apropriado, afinal de contas, em “Uma Questão de Confiança” ninguém é o que realmente parece ser, e esse é grande trunfo de uma trama que baseia boa parte dos conflitos e mistérios no fato de boa parte dos personagens parecer entregar cegamente suas vidas e a de seus filhos a pessoas que por uma ação da “solidão” e da rotina, julgam conhecer profundamente.

Millar soube como ninguém transformar uma história que tinha tudo para ser um retrato da vida cotidiana num belo drama psicológico. Minha única ressalva, no entanto, diz respeito a forma como autora concluiu sua história, já que a impressão que tive é que o final foi feito as pressas – o que parece irônico num livro que começou de maneira lenta, justamente com a ideia de apresentar bem a sua proposta.

Ainda assim, pode-se dizer que o “saldo” é positivo e se você procura uma história intrigante e recheada de personagens extremamente dualistas, “Uma Questão de Confiança” com toda certeza será uma excelente leitura!

Anúncios