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Num típico domingo sem sol, abri minha página no Facebook e me deparei com uma curiosidade interessante. No dia 12 de janeiro de 1628 – há exatos trezentos e oitenta e seis anos – nascia em Paris, Charles Perrault , que é considerado o “pai da literatura infantil” já que com a publicação do livro “Os contos da mamãe gansa” em 1697 ele se transformou no grande  percursor dos famosos “contos de fadas”.

Você obviamente está se perguntando o que de tão “Importante” tem nessa curiosidade. Importante mesmo não tem absolutamente nada, mas a questão é que ler a curiosidade me despertou uma ideia que tive há alguns meses, quando numa aula de “desenvolvimento humano” o debate sobre a ilusão e a expectativa que os contos de fadas poderiam criar no comportamento humano de alguns adultos levou a uma discussão interessantíssima sobre a origem dessas histórias infantis e o cunho macabro que muitas delas possuem.

Mesmo conhecendo o fato de que algumas das historinhas sangrentas nascidas nos primórdios da Idade Média, haviam sido modificadas ao longo dos anos – sobretudo pela Disney – confesso que ao pesquisar sobre o assunto fiquei pasma com alguns detalhes dignos dos filmes de terror mais sórdidos do mundo.

Sendo assim, decidi unir o “útil ao agradável” e selecionar três contos famosíssimos do Charles Perrault para simplesmente compará-los com as historinhas de felizes para sempre que lemos e assistimos com tanta exaustão.

Vale lembrar que o Perrault  – assim como os famosos “Irmãos Grimm” – não são os criadores desses contos. Eles simplesmente passaram para o papel algumas histórias seculares que eram contadas oralmente entre gerações.

A Bela Adormecida

belaadormecida

Vou começar com a versão que mais me deixou mais “chocada” e é (graças a Deus) a mais diferente do conto que eu ouvia quando criança. Na história que estamos carecas de saber, uma princesa chamada Aurora, é vítima de uma maldição que a faz furar o dedo numa roca de fiar e adormecer até que o beijo do verdadeiro amor finalmente a desperta.

Mas como eu já me propus a comentar, as versões medievais desses contos de fadas não eram nem um pouco fofas e românticas, já que muitas dessas histórias tinham a função de assustar as criancinhas e entreter os adultos com situações absurdas e chocantes. Nesse caso, as coisas seguem bem essa “cartilha” e muito além da versão de Perrault (que até se assemelha com o conto da Disney e em momento algum menciona o nome da tal princesa amaldiçoada) há uma versão ainda mais antiga e macabra, assinada pelo italiano Giambattista Basile.

No conto de Basile – que certamente serviu de inspiração para Perrault – a bela Aurora, se chama Tália e ao invés de uma maldição foi vítima de uma profecia bem parecida com a do conto que conhecemos: assim que completasse quinze anos de idade, a bela jovem iria espetar sob a sua unha uma farpa de linho e morrer. Quando a profecia se concretiza, o pai de Tália que havia feito de tudo para manter a filha longe de objetos pontiagudos decidiu não enterrá-la e partiu deixando a garota desfalecida num dos quartos da casa…

“… uma farpa de linho fincou sob sua unha e ali mesmo ela caiu. A mulher assustada, ao ver a menina caída, correu para fora da casa e nunca mais voltou. Quando o pai ouviu falar sobre o infeliz evento, ficou arrasado e chorou tanto que de pranto se esvaziou. Em tamanha tristeza não teve coragem de colocar sua filha abaixo da terra tão fria, ao invés disso, com as roupas mais belas e bem feitas vestiu Tália e a colocou em cima de um estrado coberto de brocado em um dos quartos e, em seguida abandou a propriedade para sempre.

E se você está pensando que um príncipe encantado aparece para salvar a pátria, está sendo muito otimista. Na pérfida história original, um rei que caçava pelas redondezas descobre o corpo de Tália e ao invés de fazer alguma coisa decente, decide se aproveitar do corpo desacordado da pobre coitada (isso mesmo que vocês estão imaginando…)

“Então ele subiu e vagou por parte da casa, mas não encontrou nada além de móveis empoeirados. Foi assim de sala em sala, de quarto a quarto, até que chegou a uma grande sala, onde encontrou uma menina encantadora, que parecia estar dormindo. Ele chamou por ela inumeras vezes, mas a bela não acordava. Entrou então na sala e olhou para ela de perto. Era tão incrivelmente linda que ele não podia deixar de desejá-la, e em seu íntimo começou a crescer uma luxúria quente. Foi assim, cheio da loucura da paixão, que a tomou em seus braços e  fez amor com ela. Depois de apagar a fúria de seu desejo, deixou a moça na cama, saiu de lá e voltou para seu reino, onde não pensou mais sobre o ocorrido.

Para piorar, Tália acaba grávida e nove meses depois, ainda desfalecida (!), dá a luz a um casal de gêmeos. Um belo dia, um dos bebês (que logicamente estava com fome) suga com força o dedo da mãe e extrai a farpa, fazendo com que Tália finalmente desperte de seu sono profundo (imagina a maravilha que deve ser acordar e descobrir que foi estuprada e virou mãe de duas crianças!!!)

“Tália acordou, como se de um longo sono. Quando ela viu os bebês, não sabia o que tinha acontecido ou como havia chegado ali, mas abraçou-os com amor, amamentou até que eles ficaram satisfeitos e os momeou Sol e Lua.

Calma que tem mais. Algum tempo depois, o rei resolve voltar a casa de Tália para ver se podia se aproveitar mais um pouquinho da coitada e ao descobri-la acordada e com duas crianças a leva para viver com ele em seu castelo. O problema? O queridinho esqueceu de avisar que era casado com uma rainha que logicamente fica possessa de ciúmes e tenta matar Tália e os gêmeos. “Felizmente” o rei chega a tempo de salvar os três e assassina a própria esposa, ficando livre para se casar e viver feliz para sempre com a bela adormecida que a essa altura do campeonato já está completamente apaixonada pelo traste… (jesusapagaaaluz)

“Casou-se com Tália, que viveu uma vida longa e feliz com seu marido e filhos, sempre sabendo muito bem que “A pessoa que é favorecida pela sorte tem sorte mesmo enquanto dorme”.

Claro.. como se fosse uma super sorte ser estuprada enquanto dorme e ainda por cima se apaixonar, casar e viver “feliz para sempre” (!) com o autor da agressão…

Chapeuzinho Vermelho

chapeuzinho vermelho

Outra historinha infantil que me deixou boquiaberta com sua versão original foi o conto da Chapeuzinho Vermelho. Todo mundo conhece a história da menina de capuz vermelho que vai levar doces para a vovózinha e desobedecendo as recomendações de sua mãe dá ouvidos a um lobo cheio de más intenções que lhe indica um caminho longo e difícil, enquanto pega um atalho até a casa da senhorinha e a devora. Quando a ingênua chapeuzinho finalmente chega a casa de sua avó, dá de cara com um lobo disfarçado que faz de tudo para enganar a garotinha até finalmente devorá-la também. Por fim, um caçador que surge sabe-se lá de onde salva o dia ao tirar com vida (!) chapeuzinho e sua querida vovó da barriga do labo malvado.

Obviamente a história não é bem assim… Em 1697, na versão escrita por Perrault não existia caçador e consequentemente nenhum final feliz. A intenção era justamente “assustar” as criancinhas (e as mocinhas) para que elas não desobedecessem seus pais e nem caíssem na conversinha de qualquer um. Até aí no entanto, não tem nada muito macabro. Era apenas uma história que para reforçar a sua moral, termina com um fim trágico. O “problema” está justamente no desenrolar do conto.

Sabe o momento em que Chapeuzinho chega a casa da vovó e encontra o lobo vestido com as roupas da velhinha? Pois é. A mulher não está viva na barriga do vilão, mas fatiada (sim!) e servida como o jantar da noite – que obviamente é saboreado pela garotinha do capuz vermelho – que como se não bastasse ainda bebe sem saber o sangue da pobre criatura pensando ser uma deliciosa taça de vinho (eeeerh!)

“A Menina comeu o que lhe foi oferecido, e enquanto comia o gato de sua vó a observava aos murmúrios: ‘Meretriz! Então, comes a carne e bebes o sangue de tua avó com gosto. Ata teu destino ao dela'”.

Depois do maravilhoso (só que não) jantar, o nosso amável lobo pede para Chapeuzinho queimar suas roupas na lareira e se deitar nua com ele na cama! É nesse momento, que se dá então, aquele famoso diálogo do “que boca grande a senhora tem!” (que como muitos desconfiavam realmente tem um sentido bem erótico…).

Depois disso não sobra muita coisa: como na história que conhecemos, o Lobo Mau parte para o ataque e devora nos dois sentidos a desavisada chapeuzinho…

“Então a garota deitou-se ao lado do lobo, e ao sentir o toque do pelo roçar em seu corpo disse: ‘Como a senhora é peluda vovó!’ – ‘É para te esquentar, minha neta’, respondeu o lobo. ‘Que unhas grandes a senhora tem!’ – ‘São para me coçar, minha querida!’. Que dentes grandes a senhora tem!’ – ‘São para te comer!’  E então a devorou.

Duvido que depois dessa historinha linda, alguma criancinha medieval saiu pela “estrada afora andando bem sozinha”…

Cinderela

cinderela

Por fim, o clássico dos clássicos. A boa e nobre Cinderela era uma menina que após a morte do pai acaba escravizada pela madrasta má e suas duas filhas megeras até que num belo dia recebe ajuda de uma fada madrinha que a transforma para ir ao baile onde o príncipe encantado irá escolher a sua futura esposa. O príncipe logicamente caí de amores por Cinderela que sabendo do “prazo de validade” do encanto da fada, foge deixando para trás um sapatinho de cristal. Determinado a encontrar a bela mulher do baile, o príncipe manda todas as garotas do reino provarem o sapato prometendo fazer de sua esposa a verdadeira dona do dito cujo. Loucas para virarem princesas, as irmãs más de Cinderela tentam se passar por donas do sapato, mas a felizarda era mesmo Cinderela que se casa com o príncipe e vive feliz para sempre.

Quem não conhece essa história? Cinderela é para mim o verdadeiro “conto de fadas” – a menina boa, pobre e sofredora que se casa com um príncipe encantado, resolve todos os seus problemas e vive feliz para sempre. Quer mais clichê que isso? Pois bem, o conto de Perrault não difere muito da versão que estamos acostumados a ouvir. Aliás, a Cinderela de 1697 consegue ser ainda mais boazinha e submissa que a loirinha do filmes da Disney.

Entretanto, como o povo da Idade Média adorava um sangue e uma morte macabra, há momentos em que a história passa longe da meiguice. Quer um exemplo? Sabe quando o príncipe encantado vai até a casa da Cinderela calçar o sapatinho de cristal nas moças? Pois bem, ao invés de tentarem enfiar de qualquer jeito o pé dentro do sapato, as irmãs más se auto-mutilam cortando pés e calcanhares (ai!) para enganar o mocinho. Percebendo a mentira das garotas, passarinhos que estavam na janela avisam o príncipe que há sangue nos pés das irmãs e como punição simplesmente bicam os seus olhos até elas ficarem cegas (!!!!).

 “A verdadeira noiva esta não é! Se o príncipe olhar para o sapato, verá que há sangue no pé! (…)  o coração das malva­das ia cheio de pensamentos maus, de ódio e inveja. Por isso, as duas pombinhas brancas voaram na direção das invejosas e, com o biquinho, furaram-lhes os dois olhos, deixan­do-as cegas pelo resto da vida, como castigo por sua maldade. Quanto a Gata Borralheira, viveu feliz com o príncipe por muitos e muitos anos.

Dizem também, que nas histórias mais antigas, Cinderela não usava um sapatinho de cristal, mas um sapatinho de pele (eca!) – o que explicaria o fato do príncipe não perceber os pés mutilados das irmãs megeras. Aliás, essa mudança se deve ao um erro do próprio Perrault que provavelmente se enganou em relação a pronuncia dos termos, já que em francês “vair” significa peles variadas, enquanto “verre” refere-se á vidro ou cristal.

Enfim… sei que o post ficou imenso. Mas não é interessante perceber que histórias que sobreviveram séculos sofreram inúmeras alterações até parecerem aceitáveis para o ponto de vista da sociedade em que se insere? Eu particularmente adoro o tema e sei também que há muitos outros conto de fadas com um lado bem macabro que eu também adoraria compartilhar em um próximo post…

Sugestão: para quem também se interessou pela tema, vale a pena ler “A Psicanálise dos Contos de Fadas” de Bruno Bettelheim que mistura da melhor maneira possível psicologia com a origem dessas histórias clássicas!

 

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