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Título Original: Between Shades of Gray
Ano de Lançamento: 2011
Editora: Arqueiro
Número de Páginas: 240
Nota: 5/5

Para os soviéticos não existem mais Estônia, Letônia ou Lituânia. Stalin precisa se livrar de todos nós para poder admirar sua visão sem empecilhos”

Segunda Guerra Mundial é inevitavelmente sinônimo de Hitler e a sua obsessão pela hegemonia da “raça ariana”. Desde muito cedo, todos nós ouvimos e aprendemos na escola sobre os campos de concentração nazistas e os horrores vividos pelas vítimas do geconídeo alemão. Até agora, todos os livros que eu havia lido sobre esse período conturbado da história mundial remetia de alguma forma ao holocausto e as atrocidades vividas pelas vítimas do nazismo, mas muito além do Campo de Auschwitz e das barbares de Hitler, existiam três países, três povos que viveram uma guerra que infelizmente é até hoje pouco conhecida.

Estônia, Letônia e Lituânia. Três pequenos países do báltico europeu que foram literalmente varridos do mapa. Assim como Hitler, Josef Stalin o “todo poderoso” da União Soviética não media esforços para atingir os seus objetivos, e durante o seu reinado de terror assassinou mais de 20 milhões de pessoas das mais variadas formas possíveis. Prisões, deportações, trabalho escravo em campos de concentração localizados nos lugares mais íngremes do planeta. A hegemonia soviética, foi assim como a alemã, um verdadeiro banho de sangue. Sangue de pessoas inocentes que foram tiradas de suas casas, separadas de suas famílias e obrigadas a viverem as piores torturas físicas e psicológicas que poderiam imaginar.

A Vida em Tons de Cinza é exatamente sobre isso. Neta de lituanos e familiarizada com as histórias de horror vividas pelo seu povo, Ruta Sepetys mergulhou numa verdadeira pesquisa repleta de depoimentos de sobreviventes do genocídio soviético para criar uma história que apesar de envolver personagens fictícios, revela uma faceta de horror que a grande maioria desconhece. Sem dúvidas um dos melhores livros que já li em anos.

Denso e ao mesmo tempo sutil, A Vida em Tons de Cinza conta a história de Lina Vilkas uma lituana de 15 anos que dotada de um grande talento artístico, vê todos os seus sonhos destruídos quando na noite de 14 de junho de 1941 é deportada ao lado da mãe e do irmão de 10 anos. Jogados num trem, sob condições desumanas, a família Vilkas inicia uma longa e difícil jornada ao lado de outros deportados que assim como eles acabam sendo levados para um gulag – uma espécie de campo de trabalho – onde sofrem maus-tratos e são obrigados a trabalhar arduamente em troca de migalhas.

Aos poucos, Lina e sua família percebem que a única coisa que possuem é o amor e a esperança. Unidos, os deportados lutam pela sobrevivência e apesar da precariedade sob a qual são obrigados a viverem, ajudam uns aos outros da maneira como podem. Lina, usa o seu talento para as artes para tentar enviar mensagens codificadas ao pai que está numa prisão soviética. Elena, a mãe de Lina, usa sua compaixão e o seu espírito de liderança para manter a união e lutar pela liberdade, assim como Jonas, o caçula dos Vilkas que apesar da pouca idade se mostra um garoto forte e extremamente corajoso.

“Se Stalin conseguisse o que queria, o gelo e a neve seriam nosso túmulo

A Vida em Tons de Cinza, apesar de forte, nós dá uma verdadeira lição de fé e dignidade. Sem ter onde se agarrar, os deportados suportam as atrocidades nas quais vivem estreitando os laços com pessoas que em uma “situação normal”, talvez nunca fossem conhecer. Seja num simples olhar de conforto ou um pequeno gesto de solidariedade. Todo e qualquer ato é mais do que um bom motivo para unir ainda mais um povo que perdeu tudo, menos a esperança e a vontade de sobreviver.

Com personagens, extremamente bem construídos e uma narrativa cativante, Ruta Sepetys escreveu um dos relatos mais sinceros e emocionantes que eu já tive a oportunidade de ler. Sem sombra de dúvidas, um livro que vale a pena não só pela qualidade, mas por trazer à tona uma guerra que até pouco tempo só esteve presente na lembrança daqueles que realmente viveram – e sobreviveram – a ditadura de Stalin.

“Há guerras feitas de bombardeios. Para os povos bálticos, essa guerra foi feita de crenças. Em 1991, após 50 anos de uma ocupação brutal, os três países reconquistaram sua independência, com paz e dignidade. Eles escolheram a esperança em vez do ódio e mostraram ao mundo que, mesmo na mais escuras das noites, existe luz. Por favor, pesquisem a respeito. Contem a alguém. Esses três minúsculos países nos ensinaram que o amor é a mais poderosa das armas. Pode ser o amor por um amigo, por um país, por Deus, ou até mesmo pelo inimigo – o amor nos revela a natureza realmente milagrosa do espírito humano.” – Rutha Sepetys

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