Bem no comecinho desse ano, no aniversário de nascimento de Charles Perrault – o “pai da literatura infantil” –  fiz um post enorme, mas bem interessante sobre a real origem de alguns contos de fadas que inevitavelmente fizeram parte infância de muita gente. Como recebi um “feedback” super positivo e percebi que não sou a única que se interessa por esse “lado macabro” dos contos, decidi fazer uma segunda postagem só para incluir mais algumas histórinhas que obviamente são bem mais “sinistras” que muita gente imagina.

Mais uma vez vale lembrar que essas histórias em sua maioria surgiram nos primórdios da Idade Média e eram passadas oralmente de pai para filho. Como não estávamos lá para ouvir os relatos, é muito provável que as primeiras versões escritas dessas histórias também tenham sido modificadas.

A Pequena Sereia

...

Para começar (ou recomeçar) o meu conto de fadas favorito. No clássico filme da Disney, Ariel é uma jovem sereia que ignora os avisos do pai, o poderoso Rei Tritão, e faz um acordo com Ursula – a médica que matava pacientes na UTI – a bruxa dos mares. Apaixonada por um humano, o príncipe Eric, a jovem se transforma temporariamente em humana, mas em troca entrega a sua voz (a única coisa que o príncipe “sabe” sobre ela) para a bruxa que obviamente passa uma rasteira na mocinha e também se disfarça de humana para conquistar Eric – que como todo bom mocinho também cai feito um patinho na história da vilã. No fim das contas, o pai de Ariel descobre todo o drama da filha e decide interceder a favor dela (nem que para isso precise perder o seu trono de Rei dos Mares num acordo com Úrsula). A bruxa, porém, acaba morta e além de reaver o seu título de Rei, Tritão transforma Ariel definitivamente em humana, deixando a ruivinha livre para viver feliz para sempre ao lado do Príncipe que a essa altura já havia descoberto as tramoias da vilã dos mares e estava completamente apaixonado pela pequena sereia.

Lógico que a história não é bem assim. Datado de 1837 e de autoria de Hans Christian Andersen, o conto da “pequena sereia” é um pouquinho mais trágico que o filme da Disney. Para começo de conversa, nenhum dos personagens tem nome. Isso mesmo, nada de Ariel, Eric, Tritão ou Úrsula. Em seu texto, Andersen refere-se aos personagens simplesmente como “pequena sereia”, “príncipe”, “rei dos mares” ou “feiticeira”.

“Ariel” também não é uma menina desobediente. Diferentemente do conto de fadas que estamos acostumados a ouvir, a mocinha sobe a superfície porque é um ritual que toda sereia cumpre ao completar 15 anos! Sendo assim, quando chega a idade, a sereia e suas cinco irmãs (que são criadas pela avó) simplesmente cumprem o “ritual” da sua família (que sim, é a realeza do mar).

Quando vocês completarem quinze anos – disse a avó –,vamos deixá-las subir até a superfície e se sentar nos rochedos à luz do luar, para ver os grandes navios passarem. Verão florestas e também cidades.”

O resto é basicamente igual. A pequena sereia salva o príncipe de um afogamento, canta para ele e some antes que o dito cujo acorde. Apaixonada pelo humano, ela realmente busca um acordo com a feiticeira dos mares que em troca pede a voz da mocinha. A diferença, porém, surge quando a feiticeira avisa “Ariel” que quando seus pés encostassem no chão ela sentiria a dor de quem pisa em centenas de espadas afiadas (!!!). E mais: caso ela não se casasse com o príncipe, o feitiço acabaria e por ela ser uma seria (um ser sem alma) jamais voltaria a sua forma original, estando condenada a viver por toda a eternidade como uma mera espuma do mar (!!!).

Uma vez tomada a forma de um ser humano, nunca mais voltará a ser uma sereia.Você não será capaz de descer nadando ao encontro do palácio de seu pai e de suas irmãs. A única maneira de conseguir uma alma imortal é conquistando o amor do príncipe e fazer com que ele esqueça o pai e a mãe por amor a você. Ele deve tê-la sempre em seus pensamentos e permitir que o padre una suas mãos para que se tornem marido e mulher. Se o príncipe se casar com outra pessoa, na manhã seguinte seu coração se quebrará e você se tornará espuma na crista das ondas“.

É aí que as coisas começam a ficar trágicas. Não, a bruxa/feiticeira não se disfarça e usa a voz de Ariel para enfeitiçar o príncipe. O fato é que quando salvou o bendito do afogamento, a sereia o deixou numa espécie de templo onde havia uma jovem que o príncipe acredita ser a mulher que o livrou da morte. Os dois simplesmente se apaixonam e quando a sereia finalmente consegue o seu acordo para virar humana, descobre que o grande amor de sua vida está de casamento marcado e completamente apaixonado pela noiva…

“Ariel” logicamente tenta de todas as formas possíveis conquistar o príncipe, que até se sente atraído por ela mas não o suficiente para largar a menina do templo. Desesperada, a sereia (que já está com os pés sangrando de tanta dor) sabe que em breve vai virar espuma do mar, e é aí que entra as irmãs da mocinha. Isso mesmo, diferentemente do filme da Disney são as irmãs e não o pai de da protagonista que tentam salvá-la através de um novo acordo com a bruxa.

No conto de Andersen, as cinco irmãs mais velhas da pequena sereia se unem e em troca DOS SEUS CABELOS (!!!!) recebem uma adaga que segundo a bruxa do mar, deverá ser cravada no coração do príncipe, dando a chance de “Ariel” reverter o seu destino e voltar a ser sereia. A mocinha, no entanto, não tem coragem de matar o grande amor de sua vida e além de assistir ele se casando com outra, acaba virando espuma do mar (de certa forma um espírito, já que ela era bondosa e ansiava por uma vida humana e eterna).

” — Onde estou? – perguntou, e sua voz soava como a dos outros seres, mais etérea que qualquer música terrena podia soar.— Entre as filhas do ar – responderam as outras. — Uma sereia não possui uma alma imortal, e jamais pode ter uma a menos que conquiste o amor de um ser humano. A eternidade de uma sereia depende de um poder que independe dela”.

Pois é, trágico. Além de deixar as irmãs carecas, a sereia  “morre” e o príncipe vive feliz para sempre ao lado de outra…

Branca de Neve

...

Dificilmente exista algum adulto que  não conheça a história da Branca de Neve, já que ao lado de Cinderella a história é um dos maiores clássicos infantis de todos os tempos. Segundo a Disney, Branca de Neve era a bela enteada de uma rainha muito vaidosa que depois de ouvir de seu espelho mágico que somente a jovem garota era mais bonita do que ela, decide eliminar a concorrência contratando um caçador para matar a mocinha. Branca de Neve, porém, consegue fugir e se abriga numa cabana onde passa a ser protegida pelos sete anões que viviam por lá. Num belo dia, a rainha descobre através do espelho mágico que Branca de Neve está viva e não muito longe do castelo. Possessa, a vilã decide “sujar as mãos” e engana a mocinha ao se passar por uma velhinha que vendia maçãs. Ela obviamente, entrega uma fruta envenenada para Branca de Neve, que logo na primeira mordida cai num sono profundo. Mas como o bem sempre vence o mal, os planos da rainha maligna são frustrados quando um príncipe encantado que passava pelas redondezas descobre a história de Branca de Neve e a desperta com um simples beijo de amor.

Há quem diga que a história da Branca de Neve foi inspirada no caso da princesa alemã Margarete von Hatzfeld que viveu no século XVI e por ser extremamente bela, era muito cobiçada pelos príncipes da Europa, especialmente o futuro rei da Espanha, Felipe II. O destino da jovem princesa, no entanto, não foi nem um pouco feliz. Antes que qualquer príncipe movesse uma palha para se casar com Margarete, ela acabou morta por envenenamento (e sim, ela tinha uma madrasta, mas muito provavelmente a sua morte tinha mais haver com questões políticas do que com qualquer outro fator que envolvesse inveja ou vaidade feminina).

A história oficial, no entanto, é que em 1812 os Irmãos Grimm se inspiraram num conto que ouviram de duas irmãs chamadas Jeannette e Amalie Hassenpflug. Nele, Branca de Neve ainda era uma CRIANÇA quando despertou a ira de sua madrasta que assim como no conto que conhecemos, realmente contratou um caçador para matar a garota. A diferença, no entanto, é que ao invés de trazer o coração da mocinha numa caixa, o assassino deveria trazer outros órgãos como os pulmões e  o fígado da vítima. O motivo? Bem, a rainha simplesmente queria COMER (!!!) todas essas “iguarias deliciosas”…

Branca de Neve, no entanto, consegue fugir e o caçador com medo de admitir que falhou, leva os órgãos de um javali para a Rainha que obviamente se delicia com um belo jantar do que acredita ser partes do corpo de sua “inimiga”. Enquanto isso, a protagonista da história consegue abrigo na cabana dos anões, mas como nada é de graça nessa vida, deveria “pagar” a sua estadia na casa dos homenzinhos lavando, passando, cozinhando, costurando e passando.

“Pois bem, a rainha que pensava ter comido os pulmões e o fígado de Branca de Neve, agora tinha certeza de que era a mais bonita do lugar. Foi até diante do espelho e perguntou: – Espelho, espelho, vem já e me diz, quem é a mais linda de todo o país?”

Outra grande diferença da história que conhecemos para o conto dos Irmãos Grimm, é que ao descobrir que Branca de Neve está viva, a Rainha tenta matá-la três vezes. Disfarçada de velhinha, a vilã vai até a casa dos anões e leva um corpete de seda, que deveria ser apertado o máximo possível, fazendo com que Branca de Neve ficasse sem ar e morresse asfixiada (hahaha). O plano, no entanto, acaba falhando e na maior persistência do mundo, a rainha retorna a cabana com uma outra ideia brilhante: pentear os cabelos da mocinha com um pente envenenado! Como não funciona, a última tentativa é a famosa maçã. Mas ao invés de simplesmente envenená-la para que Branca de Neve caísse num sono profundo, a ideia era muito mais simples: fazer com que a garota morresse engasgada com um pedaço da fruta (o que de fato acontece).

“Branca de Neve viu chegar uma camponesa de aspecto gentil, que lhe colocou na janela uma apetitosa maçã, sem dizer nada, apenas sorrindo, um sorriso desdentado. A princesinha nem suspeitou de que se tratava da madrasta, numa terceira tentativa. Branca de Neve, ingênua e gulosa, mordeu a maçã

Quando os anões chegam na cabana, encontram Branca de Neve desacordada e com pena de enterrá-la, fazem um cripta de vidro que acaba sendo comprada por um príncipe. O que esse homem queria com um cadáver ninguém sabe, mas o fato é que durante a viagem até o castelo do dito cujo a tal da cripta cai e Branca de Neve volta à vida ao cuspir o pedaço da maçã que a fez engasgar.

Os dois obviamente se apaixonam e com uma vontadezinha básica de sambar na cara da madrasta má a convidam para  o casamento. Feliz da vida, a rainha vai até a festa, mas se apavora ao descobrir que Branca de Neve não só está viva, como também é a noiva do casório. Como se não bastasse a vilã é obrigada a calçar um par de sapatos de ferro na brasa e dançar até cair morta (!!!). Isso mesmo, nada de penhascos…. a rainha morre de uma maneira muito mais trágica e sombria que no filme da Disney.

“Como castigo, teve que usar um par de botas de ferro que estavam aquecidas. As botas fixaram-se na rainha e a obrigaram a dançar; ela dançou e dançou até, finalmente, cair morta.”

Ah sim. A Branca de Neve ainda era uma criança. Há algumas edições do conto dos Irmãos Grimm que deixam bem claro a idade da menina: sete anos. Pois é… durmam com essa!

Fontes: Super Interessante; A Psicanálise dos Contos de Fadas; Just Lia

Anúncios